domingo, 19 de março de 2023

Foge! ou Fogo! (interjetivos)

      Engraçado ver que, mal começo, vem uma chuva de exemplos.
   
   É o que acontece sempre que, por aqui, menciono um erro ou outro nos nossos canais televisivos. Dos mais repetitivos na tipologia de erro aos mais originais, lá me vão facultando fotos do que "corre" nalgumas legendas.
      Desta feita, chegou-me às mãos / aos olhos o seguinte:

Sem pânico na machadada perpetrada na língua - assim vão as notícias (com agradecimento à AD)

     No âmbito comum da ortografia, este é um erro que pode instalar-se pela natureza de alguma irregularidade morfológica do verbo, nomeadamente no contraste 'o/u' de algumas formas (foge, foges, fujo, fugimos, por exemplo). A fonética, contudo, ainda permite distinguir o que alguma convencionalidade gráfica pode fazer perigar (mais no contraste 'j/g' do que nos casos vocálicos em concreto).
     Ver este erro em contextos de aprendizagem da língua ou de utilizadores menos esclarecidos poderá (ainda) ser compreensível e uma boa oportunidade para mostrar regularidades no reconhecimento do léxico (como é o caso da família de palavras evidenciada em 'fugir > fujo > fugimos > fuga > fugido > ...'). Nos meios de comunicação social, é impensável ler o que nos é dado a ver.

      Apetece-me exclamar: "Foge!"

sábado, 18 de março de 2023

Surdez, falta de audição... em canal sensacionalista

       Até podia ser alguém que não quisesse ouvir detidos.

      Só que, para tal, era necessário que estes existissem. E tal não aconteceu!
      Portanto, "não houve detidos" era o que devia ser lido; porém, o que apareceu escrito...

Um ouvir confundido com existir - sensacional! (Foto enviada pela AMT, com o devido agradecimento)

      No meio de tanto sensacionalismo, o que não é nada sensacional é haver alguém a confundir o verbo 'ouvir' com 'haver' e, na homofonia de formas verbais distintas graficamente, um canal de comunicação difundir um erro crasso: não distinguindo os verbos, não diferenciando os tempos, não exemplificando o rigor que propaga aos quatro ventos (e mal e parcamente denuncia em quatro letras, que deveriam dar lugar a cinco).

       Caso para dizer que, no canal televisivo das desgraças, uma desgraça nunca vem só!

sexta-feira, 17 de março de 2023

Perturbação em cima de perturbação

     Não bastava o tema (desconcertante) também tinha de vir a forma (errada).

    Não, já nem sequer menciono o tema, de tão evidente e noticiado que tem sido. Não fosse essa nódoa social (caída em pano que não pode ser da melhor qualidade), uma outra surge já tão comentada por mim sempre que uso estrategicamente o sinónimo de 'sobre':

Confusões... da Igreja e da Televisão: Onde está a salvação? 
(Foto VO a partir da emissão do Telejornal da RTP1, com agradecimento à ARS pela leitura atenta)

     Muitos ouviram-me dizer "E toca a escrever bem, porque, nos sinónimos, de uma só palavra se trata, seja 'sobre' seja 'acerca'.
      Precisa a Igreja de salvação e de perdão; a ortografia, de correção (Valha-nos Deus ou um santinho qualquer)!

   Quem redige os rodapés televisivos na RTP anda a precisar de umas aulas de Português, mais propriamente de ortografia, para não se deixar enganar ora por paronímias (acerca / a cerca / à cerca) ora por homofonias (há cerca / à cerca / acerca) que a língua tem.

terça-feira, 14 de março de 2023

Poesia nas notícias, com PRR à mistura

     Diz o jornalista que o Sr. primeiro ministro afirmou que só na poesia é que basta Deus querer para a obra nascer.

      A citação, feita por José Rodrigues dos Santos, evocando o discurso de António Costa, é redutora e incompleta. Basta ouvir o restante apontamento noticioso televisivo (Telejornal da RTP1, pelas 20:40-20:42) para confirmar como o governante foi bem mais completo na tradução do pensamento pessoano: "Só na poesia é que basta Deus querer, o homem sonhar e a obra aparecer". 

Pessoa-Poesia-PRR: relações que a (ir)realidade tece no Telejornal da RTP 1 (Foto VO)

    Sem necessidade de precisar arquitetos e empreiteiros implicados na obra (faltaram os trolhas, sem cujas mãos nada passa a existir), diria que o discurso ministerial foi mais feliz na tríade plasmada em verso famoso. Embora "aparecer" esteja mais para "nascer" (tal como o jornalista apresentou e o poeta modernista o concebeu - "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce"), a obra talvez não seja tão concreta como o governante a quer fazer passar, ao referir-se à construção de uma estrutura residencial para idosos (a Unidade Social Da Cruz Vermelha da Portela). Pessoa estava mais para algo da ordem do espiritual, do imaterial, do idealizado, do inconsciente. A materialidade e o real eram enleio para o poeta que nos deixou uma "Mensagem": a de que "falta cumprir-se Portugal!" (cumprido o Mar e desfeito que foi o Império geográfico, histórico, material) e, por isso, indiretamente se subentende o convite ao "Cumpra-se!".
        Entre jornalismo e governação, fico-me pela literatura, pela poesia, por ser libertadora de enredos e enleios de uma realidade que vai deixando a desejar, não obstante a pluralidade de cores esbatidas, pálidas para o bem humano.

      Isto de misturar poesia com obras concretas (de cimento, mesmo), PRR e reações a discursos políticos tem muito pouco que se lhe diga. E do jornalismo redutor, incompleto e condicionador mais vale nem falar.

sábado, 11 de março de 2023

Voltas que duas vidas dão

      Uma balada italiana, no seu melhor. 

    Não sei se é pela língua, se pela musicalidade, se pela interpretação, se por versos que traduzem muito de uma realidade que gostaria de ver contrariada.
    Do ritmo embalatório inicial ao crescendo poderoso do ritmo e da voz, Marco Mengoni vence o festival de San Remo, fazendo caminho para a Eurovisão. Fá-lo pela segunda vez, depois da passagem de uma década, quando representou a Itália com "L'Essenziale". Regressa com "Due Vite":

Representante da Itália no Festival da Eurovisão (2023)

      Duas vidas: a real e a da inconsciência (a lembrar muitos tópicos pessoanos, diria). Letra e melodia numa conjugação perfeita.

      DUE VITE

Siamo i soli svegli in tutto l'universo
E non conosco ancora bene il tuo deserto 
Forse è in un posto del mio cuore dove il sole è sempre spento 
Dove a volte ti perdo, ma se voglio ti prendo 
Siamo fermi in un tempo così, che solleva le strade 
Con il cielo ad un passo da qui, siamo i mostri e le fate 
Dovrei telefonarti, dirti le cose che sento 
Ma ho finito le scuse e non ho più difese 

Siamo un libro sul pavimento in una casa vuota chе sembra la nostra 
Il caffè col limone contro l'hangover, sеmbri una foto mossa 
E ci siamo fottuti ancora una notte fuori un locale 
E meno male

Se questa è l'ultima canzone e poi la luna esploderà 
Sarò lì a dirti che sbagli, ti sbagli e lo sai 
Qui non arriva la musica 
E tu non dormi 
E dove sarai? 
Dove vai quando la vita poi esagera 
Tutte le corse, gli schiaffi, gli sbagli che fai 
Quando qualcosa ti agita 
Tanto lo so che tu non dormi, dormi, dormi, dormi, dormi mai 
Che giri fanno due vite 

Siamo i soli svegli in tutto l'universo 
A gridare un po' di rabbia sopra un tetto 
Che nessuno si sente così 
Che nessuno li guarda più i film 
I fiori nella tua camera 
La mia maglia metallica 

Siamo un libro sul pavimento in una casa vuota che sembra la nostra 
Persi tra le persone, quante parole senza mai una risposta 
E ci siamo fottuti ancora una notte fuori un locale 
E meno male 

Se questa è l'ultima canzone e poi la luna esploderà 
Sarò lì a dirti che sbagli, ti sbagli e lo sai 
Qui non arriva la musica 
E tu non dormi 
E dove sarai? 
Dove vai quando la vita poi esagera 
Tutte le corse, gli schiaffi, gli sbagli che fai 
Quando qualcosa ti agita 
Tanto lo so che tu non dormi 
Spegni la luce anche se non ti va 
Restiamo al buio avvolti, solo dal suono della voce 
Al di là della follia che balla in tutte le cose 
Due vite guarda che disordine 

Se questa è l'ultima canzone 
(Canzone e poi la luna esploderà) 
Sarò lì a dirti che sbagli, ti sbagli e lo sai 
Qui non arriva la musica 
Tanto lo so che tu non dormi, dormi, dormi, dormi, dormi mai 
Che giri fanno due vite
 
     Perdidos entre as pessoas... quando a vida exagera... quando a música não chega... as voltas que duas vidas dão.

      Um candidato à vitória, por certo. Assim seja!

quinta-feira, 9 de março de 2023

Avaliações (algo destrutivas)!

      Escolher bem ou mal as palavras ou expressões pode condicionar qualquer avaliação.

    Pense-se num(a) aluno(a) a quem se avalia comportamentos na base do que ele(a) aprecia fazer, quando, onde e com quem. Leia-se a lista das ações / atividades identificadas e...

Um registo avaliativo no mínimo duvidoso, a bem do respeito e cuidado a ter com os livros

       ..., no sexto cenário (a contar de cima), encontra-se o que, incompreensivelmente, possa ser feito "sempre que possível", seja em casa seja lá em que sítio for, muito menos em família: "desfolhar livros". Só numa cultura educativa de defesa da destruição do livro!
         É por isso que, quando alguém diz que desfolhou o jornal, imagino este último em cima da mesa, com as folhas soltas, rasgadas, destruídas (não havia necessidade para tal, por pior que fosse a imagem ou o texto noticioso)! Uma desgraça!

         Não distinguir "folhear" (passar de uma folha a outra, no sucessivo virar de páginas) de "desfolhar" (arrancar, tirar as folhas) é desconhecer que não se trata um livro como uma espiga de milho.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Dia Internacional da Mulher

       Um dia, que é o de hoje, devendo ser igual a todos os outros.

      Entre tantos assuntos importantes no mundo e na vida, um outro - a condição da mulher - se marca no presente, essa instância de tempo que, mais do que o agora e o hoje, se deve traduzir pela intemporalidade. 
      A esse propósito, ficam aqui as palavras de um poeta que, entre muitos temas, versou a mulher na sua plenitude. Por ele ser homem, não deixou de a ver no que tem de humanidade em busca de igualdade, equidade, liberdade, justiça, alma mater dedicada aos seus, independentemente de os ter carregado no ventre ou os ter acolhido no seu seio familiar, sem olhar ao género que lhes coube.

Retrato a carvão do poeta José Carlos Ary dos Santos
MULHER

A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são

A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade

Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher

Pormenor do cartaz alusivo à efeméride (Escola Superior de Saúde - Cruz Vermelha Portuguesa)

       Palavras que a poesia e a literatura dedicam à mulher (nesta expressão que a língua dá ao género feminino).
 
        Um feliz dia internacional da MULHER (para hoje e sempre), dando à luz e/ou trazendo luz à HUMANIDADE, para que nunca se veja ou se ouça desigual e/ou sozinha.

segunda-feira, 6 de março de 2023

Chat(o)-GPT

    Podia dar-me para melhor!

   Tantos a falar do mesmo que acabo por cair nele.
  Nada tenho contra (melhor, ... até posso ter alguma coisa, sem o diabolizar), muito menos a quem se mostra muito entusiasmado com a questão.
    E do que falo? Do Chat-GPT... de que mais podia ser?!

Inteligência Artificial, para que te quero?! Para muita coisa, mas mando eu! Combinado?

    Depois de várias tentativas, pouco me agradou ou surpreendeu.
   Não sei se perdi o meu tempo, mas espero que definitivamente não faça perder o de mais ninguém. Partilho a reflexão, sem qualquer pretensão, senão a de sublinhar que prefiro centrar o foco da discussão nas implicações pedagógico-didáticas que dele decorrem e com ele se deparam / confrontam. Artificial ou não, o "inteligente" é o que se consegue reconhecer como tal, numa avaliação que necessita de consistência, fundamentação (o mais criteriosas possível).
    Nesta medida, prefiro manter-me no controlo e não deixar-me controlar. 
    Quanto à Inteligência Artificial, prefiro a do AI (2001), de Spielberg.

    O certo é que ela vai ter muito de aprender para poder ser eficiente, eficaz e um auxílio fundamental para o professor. Dizem mesmo que não tem hipótese e, por isso, há quem já nos apresente um concorrente: o Bard (da Google).

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Bom exemplo (logo a abrir)

     Há que escolher bem, de facto!

     Não falo dos políticos nem da situação noticiada, nem sequer da maioria das palavras. Fico-me pela primeira:

Efeitos de uma guerra transmitidos com correção (Foto VO)

     A prova do bom exemplo. Para quem contava encontrar "despoletar" a significar desencadear, provocar, ocasionar, aí está o termo devido. Sendo que numa arma é a espoleta que aciona a combustão do propelente contido na munição, impulsionando o projétil pelo cano da arma, 'espoletar' é o que deve ser dito / escrito.
     A maior parte dos falantes prefere dizer a anulação, o travamento ('despoletar'), a significar o contrário. Nada que não aconteça com outras situações já aqui comentadas, mas esta é a prova do desconcerto dos utilizadores da língua, que veem no negativo o positivo.

     Quando tanto escrevo sobre o que está errado, hoje vou pelo oposto, em virtude do que foi bem escolhido.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Inteligência Artificial (e Chat-GPT)

     Muito se voltou a falar de AI ultimamente.
    
    Hoje alguém me dizia que começámos a ter noção da Inteligência Artificial (AI) com uma máquina de calcular.
    Não sei há quanto tempo foi, mas associo AI a um filme, de Steven Spielberg:

Filme protagonizado por Haley Joel Osment (pequeno David) e Jude Law (Gigolo Joe)

    Terá sido já há cerca de vinte anos. Ficou a imagem de um mundo altamente tecnológico e a mensagem de como a máquina e a emoção eram ingredientes para uma história com muito para se dizer / discutir. Uma criança-robô mostrava-se e queria ser amada em pleno século XXII, num mundo de protótipos surgido após a subida das águas do mar (decorrente do aquecimento global) e de uma mãe sofrida, pela perda de um filho, a qual decide adotar um androide.
    Vivemos uma realidade tão próxima do ficcionado que está a apetecer-me rever o filme, para dele relembrar a lição.

      Prevejo algumas reações e sentimentos algo adversos da minha parte com esta deificação da máquina e dos dispositivos que se dizem eficazes e fantásticos. Continuo a suspeitar que será mais um a não me libertar de trabalho. Suspeito que vá dar mais. Não gosto!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Umas traseiras de pouca cor

      Quem vai atrás vê / lê o que não deve.

     A publicidade é fraca, do negrume do transporte ao negro da mensagem - e logo a abrir com a primeira palavra:

Um negócio "muito escuro" (com agradecimento à CF, pela foto enviada)

       Isto de confundir a terminação da primeira pessoa do plural (Damos) com a construção pronominal da segunda ou da terceira, aglutinando o complemento direto com o indireto (Dá-mos), é caso para dizer que "na melhor pintura cai o borrão". Se o imperativo justifica a forma verbal pronominalizada na segunda pessoa ([Tu,] Dá-me os teus sapatos > [Tu,] Dá-mos) ou se o presente do indicativo traduz a constatação de um ato levado a cabo por terceiros (Ele /ela dá-me os resultados > Ele / ela dá-mos), a conjugação da primeira pessoa do plural não admite a separação da sua terminação ([Nós] Damos cor à sua casa!).

    Convenhamos que ficava bem uma pinturinha na viatura, para apagar o erro na porta traseira, que não augura bons negócios. Sempre era uma outra cor (sem erros).

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

A propósito de 'lerdismo'

      Assim alguém falava de (outro) alguém ou algo que não atava nem desatava.

      Foi então o momento de se questionar a origem da palavra. 
    Diga-se que não a encontro dicionarizada, mas faz parte daquela criatividade e potencialidade da língua, morfologicamente motivada até!
   O sufixo 'ismo' permite formar nomes abstratos tradutores do sentido de 'teoria', 'doutrina', 'movimento (artístico, estético, filosófico, político, entre outros)', 'tendência'. E porque não se trata propriamente de algo singular, é de considerar que há vários implicados na questão ou situação, mesmo quando de individualismo se trata (são muitos os que defendem este último e cada vez mais, a julgar pelo que se vai vendo a cada dia). A par da 'lerdeza' e da 'lerdice' (também nomes) ou do 'lerdíssimo' (grau superlativo absoluto sintético do adjetivo), tomaria o 'lerdismo' como mais um derivado sufixal nominal (revelador de uma tendência ou movimento caracterizador dos que são 'lerdos').
     Daí que, para se entender o potencial 'lerdismo' se recorra à base 'lerdo': caraterística depreciativa daquele que é pouco ativo, preguiçoso, que se movimenta lentamente, de modo pouco diligente. No que à inteligência e ao rasgo intelectual dizem respeito, não se distingue muito de quem se assume como parvo, estúpido, tonto, tolo; ou seja, nada esperto.
Entre a preguiça e o caracol, alguém que diga de sua justiça!
      Para quem recorre ou cria a palavra, parece que há alguns assim, ao ver que as coisas sucedem de forma vagarosa, pesada, lenta, numa espécie de inação declarada.
   Entre a hipótese dúbia de que 'lerdo' vem do castelhano trecentista, sinónimo de 'bobo'; do itálico 'lordo', a significar sujo ou porco; do francês quinhentista 'lourd', para referir o que é pesado e estúpido, não andará longe a fonte etimológica latina que, em 'lordus', apontava para movimentos lentos, numa variante de 'lurdus', isto é, aquele que tropeça, que vacila ao andar”, ou de 'luridus', cujo significado inicial era “sujo”.

      Em síntese, fiquemos pelo termo criado para denotar algo que não é desejável, mas que alguns partilham nessa condição do que ou de quem nada faz avançar, mudar, transformar, resolver o que se impõe. Contrariemos a tendência, pois!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Grande Mês!

    Depois de um janeiro que nunca mais acaba(va), começa o mês mais pequeno de todos, mas muito proverbial.

    É o costume: quando se é a menos nalguma coisa, apuram-se outras qualidades.
    Fevereiro é pequeno no número dos dias, mas grande nos provérbios (e nos saberes que se lhe associam):

Se o inverno não faz o seu dever em janeiro, fá-lo em fevereiro.

Quer no começo, quer no fundo, em fevereiro vem o entrudo.

Quando não chove em fevereiro, nem bom prado nem bom centeio.

Os dias bons de janeiro enganam o homem em fevereiro.

O sol de fevereiro matou a mãe ao solheiro.

Neve em fevereiro é mau para o celeiro.

Luar de janeiro faz sair a galinha do poleiro; lá vem fevereiro que leva a galinha e o carneiro.

Lá vem fevereiro, que leva a ovelha e o carneiro.

Janeiro geoso, fevereiro nevado, março frio e ventoso, abril chuvoso e maio pardo fazem o ano abundoso.

Fevereiro quente traz o diabo no ventre.

Fevereiro coxo, em seus dias vinte e oito.

Fevereiro afoga mãe no ribeiro.

Chuva de fevereiro vale por estrume.

Bons dias em janeiro enganam o homem em fevereiro.

Até ao Natal salto de pardal, de Natal a janeiro salto de carneiro e de janeiro a fevereiro salto de outeiro.

Água de fevereiro mata onzeneiro.

      Depois disto, registe-se também que 'fevereiro' vem do latim (februarìu-), «o mês das purificações», de februáre, «purificar; fazer purificação religiosa»). Há quem defenda que era tempo dedicado a "Februus", a quem os romanos dedicavam sacrifícios para compensar / evitar a escassez do ano.
     Ao estudar o calendário egípcio, no qual constavam 365 dias, Júlio César trocou o calendário lunar pelo solar. Janeiro e fevereiro foram colocados no início da contagem e o imperador distribuiu os dez dias de diferença face ao calendário anterior por vários meses. Claro que julho (o mês de 'julius') não podia ser menor do que outros; mas o de César Augusto também não (agosto). Na alternância dos trinta e dos trinta e um dias nos diferentes meses, dois sucessivos ficaram com trinta e um (os imperiais); o mais pequeno ficou fevereiro, que, de quatro em quatro anos, tem vinte e nove dias, por o ano solar ser um pouco maior do que 365 dias.
      As mudanças de calendário, entre os cálculos precisos dos astrónomos (considerados entre dois equinócios solares) e as decisões dos imperadores romanos ou as dos papas, marcaram fevereiro sempre como o segundo mês (introduzido com o inicial janeiro) num arranjo temporal que nunca se revelou equilibrado nas alternâncias ou no número de dias contados. 

    Purificado ou não, este é mês diferente: "dos gatos" como popularmente se diz; pequeno quanto baste para cedo se chegar à primavera, apesar do inverno que faça sentir.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Qual satisfação?!

     Isto de confundir nomes com formas verbais definitivamente não combina com educação.

    Ontem, num programa televisivo em que se discutia os motivos da greve de professores e se avançavam os argumentos mais diversificados, segundo as perspetivas em discussão, houve aquele momento sem qualquer hipótese de demonstrar "carinho" (para citar apenas quem se pronunciou em tais termos):

Uma imagem a fazer perder o sentido e a escrita de uma palavra (com agradecimento à AMT)

   Sem cara nem identificação, lá apareceu um rodapé confundindo o pretendido 'satisfaçam' (forma verbal no presente do conjuntivo) com a indesejada 'satisfação' (nome). No que toca ao domínio da língua portuguesa, não há comunidade educativa que veja as necessidades educativas satisfeitas, desconhecendo-se a ortografia (distintiva na terminação em 'am' e 'ão'), a fonética (tão marcadamente contrastiva entre sílabas tónicas e as que não o são) e a morfologia.
     É ou não é triste ler o que não se deve? Nem o programa conduzido por Carlos Daniel o merece nem Mariana Carvalho (citada) é respeitada no que diz quando se dá a ler tamanha incorreção. 
      Umas aulas de gramática impõem-se em qualquer curso de comunicação, na rádio ou na televisão.

     Uma desgraça nunca vem só, e logo num canal de televisão (RTP1) que se põe a jeito, perdendo a imagem e a razão (e assim prossegue a impunidade de quem escreve para a nação)!

domingo, 22 de janeiro de 2023

De um final de tarde em braseiro

      Depois da chuva contínua,...

     O sol brilhou hoje, fazendo por momentos esquecer o tempo inverniço (ou invernengo, tanto faz) que nos tem marcado os dias.
      Não fosse o frio sentido ao final, dir-se-ia que as cores do pôr do sol aqueciam o olhar

Entre a terra e o céu, uma estrela cai para a linha do horizonte (Foto VO)

   Espreitando por entre as copas das árvores, essa estrela branca irradiou luz e vestiu-se de um amarelo alaranjado quando caía na linha do horizonte, aqui e além distribuindo raios a rasgar a densidade sombria que da terra se ergue na direção do céu.
     Este parecia estar em braseiro, com as nuvens em tons de fogo e de cinza, entre lume e carvão. Só no alto se via o azul, mais subido, límpido.
     Esta foi mais uma perceção do meu olhar.

      ... regressaram as cores que aquecem o frio inverno e fazem ansiar pelo dourado verão.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Porque é hoje o dia

     Cem anos depois do nascimento.

     Talvez o desmereça, mas foi o que quis fazer, recuperando temas, títulos, versos, ideias. Trazê-lo à vida, ao hoje (porque do presente se fez, sem querer pensar muito no amanhã), com um sorriso.

FOSTE...

Disseste
que há palavras interditas;
palavras que nos tocam;
algumas, um cristal;
outras, um punhal.

Saíste da moldura,
foste com as aves
e viste na poesia
a música que sempre teve:
um acorde perfeito.

Rejeitaste a pureza.
Nas viagens que fizeste,
juraste ver a luz tornar-se pedra.
Nascido em inverno,
aspiraste às tardes de setembro.
Buscaste o campo e o silêncio.
Quiseste falar das oliveiras, 
de uma cerejeira em flor,
da figueira e do trigo maduro.
Preferiste as mãos e os frutos.

Afirmaste a urgência do amor,
de um barco no mar;
e quando perguntaste
"Que diremos ainda?",
mergulhaste na água;
escreveste na terra;
entregaste-te ao fogo;
levitaste no ar
e puseste no céu a lua.

Voltaste à fonte, ao rio, ao mar...
Molhado pelo orvalho,
deixaste-o escorrer no corpo.
Bebeste-o como lágrima,
quebrando a dor, a secura.
Suaste no trabalho da sílaba,
da palavra, dos versos.

Nas perdas, 
alimentaste o isolamento.
Entre brutalidade e ternura,
o rigor, o rumor, o corpo habitado,
sentiste o peso da sombra
e desejaste ser árvore.

À hora da despedida,
no tempo em que se morre,
um rio te esperou.
Ficaste na memória,
como a canção de Laga.

Tens um nome.
És lido aqui, neste país, agora.

Estarás em paz entre os anjos.
                                                  Espinho, VO

      Ao jeito de palimpsesto e de intertexto, fica uma combinação que soa a dedicatória a um grande da criação e da expressão poética lusa. Ao funcionário público que se tornou poeta. A um mestre que deu grande lição.

      Ao Eugénio que foi José e que do Fontinhas se fez Andrade.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Já não é só no café...

       Isto porque me lembro de já me ter confrontado com esta situação noutro tempo e noutro local.

     Um empregado de café, um gerente desse local ou um não comunicador a cometer um erro do tipo até já dou como falha indesculpável. Imperdoável mesmo é que um canal público televisivo exponha esse mesmo erro aos espectadores que assistem a um dos programas com audiência significativa, com apresentador reconhecido e com propagado serviço público, culturalmente relevante:

Um território ultramarino à espera do adjetivo bem escrito (Foto VO)

      Num concurso em que alguém diz que já foi tramado por um "abacaxi" ou com um locutor a repetir insistentemente o termo "confiança", na abertura do programa hoje emitido, há um desafio que vai bem além da fruta e leva qualquer um a desconfiar de que algo vai mal nos meios de comunicação social.
      Que não se saiba a resposta certa para a questão formulada (Nova Caledónia) é mal menor. Bem pior é não saber escrever, particularmente alguém que trabalha na televisão pública e faz difundir o que não deve!

    Só faltava alguém dizer que a culpa é do professor que ensinou "français". (Vai um questionariozito para quem trabalha ou venha a ser contratado pela RTP?!)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Publicidade para limpeza

      Ao chegar a casa, recolho a publicidade da caixa de correio.

      Um pequeno folheto anuncia limpezas e, ao lê-lo,...

Publicidade "pouco limpinha" (Foto VO)

    ... reparei no asseio demonstrado nos "Escritórios", eliminando-se indevidamente a acentuação na palavra. 
     Lá diz a gramática da nossa língua que as "falsas esdrúxulas", isto é, palavras terminadas com encontros vocálicos habitualmente proferidos em ditongo crescente (casos de 'ébrio', 'lítio', 'rádio', 'água', 'égua', 'armário', condomínio, 'secundário' e 'secretário', por exemplo), são graficamente acentuadas na sílaba mais intensa.

      Limpeza, sim, mas nem tanto!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Inconformismos

     Dois apontamentos, pelo dia em que ambos desapareceram (os homens, não os apontamentos)

     Um primeiro, mais atual, é para recordar o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman (19 de novembro de 1925 – 9 de janeiro de 2017):

Bertrand a citar um pensamento (criticamente) muito válido

     Um segundo, mais recuado no tempo, é para retomar um texto de alguém já mencionado nesta "carruagem" por várias vezes (três, creio... quem sabe... quatro), mas agora numa outra voz: a de um outro Mário (Viegas). Entre inconformismos, a identidade de ambos vai além do nome, como se pode ver no seguinte registo vídeo:

Programa televisivo "Palavras Vivas" (Canal 1 da RTP), com declamação de Mário Viegas

      E depois da voz, a leitura silenciosa esboçando um sorriso, na paródia pressentida:

A Invenção da Água

Como muito bem se sabe, no princípio não havia água.
Só havia o verbo.
Depois apareceram o sujeito e o complemento direto.
Mas de água, nada.

Então todos começaram a beber vinho e deus achou que era bom.
E lá isso era!

No entanto, com o aparecimento das primeiras culturas
do tipo comercial, tornou-se evidente
a falta de qualquer coisa
que pudesse aumentar a produção do vinho
e torná-lo mais rentável.

Era a água, claro.

Mas não havia água, como já fizemos notar.
As primeiras pesquisas,
então ainda bastante primitivas,
levaram à descoberta da água-pé.

Embora curiosa, essa descoberta não resolveu,
de forma alguma, o fim pretendido.
Continuava a não haver água. As pesquisas prosseguiram.

Felizmente o homem é assim, nunca desiste.
É isso que faz o progresso.
E largos tempos passados chegou-se a nova descoberta:
a aguardente.

Era melhor, não duvidemos, mas realmente não era o desejado.
Faltava a água. Definitivamente.
As civilizações pastoris, no seu nomadismo constante,
descobriram, acidentalmente, a água-bórica que,
aliás, nunca serviu para nada. Coisas de nómades.

Foi então que no seio das culturas orientais
mais avançadas tecnologicamente,
surgiu a grande invenção:
um misterioso pó branco que,
deitado em mínima quantidade num litro de água,
o convertia,
quase milagrosamente,
num litro de água.
ESTAVA INVENTADA A ÁGUA

Inicialmente rara e só usada para fazer vinho,
tornou-se no entanto com o desenvolvimento industrial,
bastante acessível e abundante.

Ergueram-se os primeiros lagos,
deu-se início aos rios pequeninos e,
finalmente surgiram os rios maiores,
aqueles muito grandes,
que consta várias pessoas já terem visto por aí.

Este progressivo desenvolvimento líquido
teve como consequência
o aparecimento de poderosas civilizações marítimas,
que se desenvolveram de tal maneira que nos puseram
no brilhante estado em que nos encontramos.

É o que fazem as invenções.

No entanto, e mesmo com a atual abundância,
não devemos abusar, dada a tremenda
explosão demográfica que se está registando.

Parece-nos mais prudente beber gin. Sempre.


Mário-Henrique Leiria
in Obra Completa - A Poesia, vol. II (inclui poemas inéditos), 
org. Tania Martuscelli
2018 (póstumo)

     De Bauman, sublinho a verdade que procuro contrariar no meu dia-a-dia (por mais que haja quem me queira lembrar trabalho, quando dele saio); de Mário-Henrique Leiria, fica, por ora, a escuta, a leitura e o brinde, com gin (já que, de água,... nada!)

     Dois tempos, dois seres, dois apontamentos... à guarda de melhores ventos.

sábado, 7 de janeiro de 2023

Um conselho com defeito

    No arranque de novo ano, podia ser conselho a ter em consideração.

    Lá poder podia, mas... falta-lhe a qualidade da correção:

Um momento sem sucesso, por conselho tão avesso (Foto VO)

   Formulado a partir de uma forma do verbo 'desfrutar', reflete a ortografia esse princípio morfológico do reconhecimento da base da palavra. Conselho, pedido, aviso, ordem que seja, escreve-se "Desfruta". 
    Faça-se, portanto, acompanhar o conselho defeituoso da virtude corretiva:

Um momento com revisão, para superar falha na confeção (Foto VO)

  Se, por acaso, alguém receber esta mensagem na forma de avental de cozinha, não o lave, para poder "desfrutar" do acrescento produzido na prenda recebida. É a prova do momento vivido na amizade, mas sempre como professor(a) de Português.
  
    O dever do ofício é uma obrigação, acompanhado do devido código de correção, para compensar o defeito de produção.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Há cem anos nascido

       Entre a prosa e o verso, ficaram os livros do gin.

     Homem das Belas Artes, rendeu-se à escrita (arte bela, pois sim). Em janeiro nascido, no mesmo mês desaparecido, foi escritor surrealista português.
  Mário Henrique Baptista Leiria viu-se politicamente perseguido, preso pela PIDE, até se instalar no Brasil, onde desenvolve uma vivência voltada para a expressão literária. Entre finais da década de 40 e os anos 70, apresentou obra, até que em 1980 morre. A escrita revela o seu espírito indomado, irónico, pouco ou nada obediente aos poderes da realidade político-social do tempo; subversivo o bastante para desafiar os códigos morais e estéticos do (bom) gosto, nomeadamente os da tendência surrealista em que o situaram.
   Cruzei-me com os seus Contos do Gin-Tonic (1973) e Novos Contos do Gin (1974), tão desconcertantes quanto fiéis a uma marginalidade própria de quem constrói um mundo às avessas, criativo e de libertação. Relembro, da segunda obra, uma pequena narrativa intitulada

ÚLTIMA TENTAÇÃO
 
    E então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pera pequenina e pálida.
   Ficaram os dois numa desesperante frustração.
   Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!
    
     Lá se foram a maçã e a serpente, mais a Eva e o Adão; também o Paraíso, dessacralizado na imagem e na palavra.

    Revolucionário, homem de contracultura(s), experimentou a escrita do inconformismo; inventou mundos e vidas coloridos de bizarria, paródia, humor negro. Tudo fora de um convencionalismo do tempo que (não) foi o seu.

sábado, 31 de dezembro de 2022

Um ano perfeito?

       Vamos lá somar os algarismos!

       2023 dá sete! Aí está: 2+0+2+3. Se for 20+23 resulta em 43. Antigamente dizia-se "Noves fora sete".
       Já aqui se tratou da magia do sete. Preferia abordar o ano mágico que está para vir.
       Fica a expectativa. No final, confirma-se ou infirma-se. Faça-se, contudo, para que assim seja: ano de esperança, de perfeição, de magia.
    Segundo as cartas do arcano maior, no Tarot, o sete configura-se com dois cavalos ou dois corpos dianteiros a arrastarem uma espécie de carruagem, montada sobre duas rodas, coberta por um dossel. É como se estivessem fundidos num carro, mas cada um andando para o seu lado (lembrando que, entre o bem e o mal, há o livre arbítrio, a escolha). Vê-se, ainda, um homem coroado, com um cetro na mão direita e a esquerda junto a um cinto dourado, sugerindo um rei ou líder na condução do caminho, do percurso a fazer. Na parte da frente do carro, há um escudo com duas letras, a variar conforme as edições das cartas.
    Designada por "O carro" ou "A carruagem", a carta sete simboliza a contemplação ativa, o repouso, a vitória, o triunfo, a superioridade e a razão. É ainda interpretada como o êxito legítimo, o avanço merecido, talento, dons e capacidade, tato para governar, diplomacia e direção competente, confiança e caminho.
     Há quem se refira às maravilhas do mundo (antigo ou contemporâneo, tanto faz). Independentemente de quais sejam ou de que tempo, são sete - o número entendido como completo e perfeito; o que se define pela totalidade, pela consciência, pelo sagrado e pela espiritualidade. Fechado o ciclo, traz consigo o cenário da renovação. Ao fechar de um ano, abra-se outro, a descobrir, renovado.
      O uso do número sete na Bíblia, por exemplo, aponta para a ideia de plenitude ou a perfeição de algo ou alguém, como se lê: na criação do mundo e o dia de descanso, no Génesis; na persistência do perdão no sete e seus múltiplos, quando, no Novo Testamento (Mateus 18:22), Jesus menciona a Pedro a capacidade de perdoar "até setenta vezes sete”; na plenitude espiritual, representada no livro do Apocalipse (que, representativo do curso de um ciclo, se abre a novas descobertas, tal como o termo o sugere no grego antigo).

       Venha o 2023, mais a magia positiva do sete! Boas saídas, ótimas entradas e o melhor do ano para todos!

sábado, 24 de dezembro de 2022

Natal com alguma cor

     E veio mais um...

     Talvez seja o tempo de (re) nascer
     Talvez seja o tempo de lembrar o que é viver
     Talvez seja o tempo de renunciar ao imediato
     Talvez seja o tempo de dar tempo

Um Postal de Natal à espera do Verde

     Talvez seja o tempo de dar outra vez à vez
     Talvez seja o tempo de outra versão (de ver o que é são)
     Talvez seja o tempo
     Talvez

     Chegou a tal vez: boas festas a todos.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

(Outros) Apontamentos natalícios na cidade

    De noite ou de dia, o Natal na cidade traz um pouco de alegria.

   Mesmo quando o cinzento no clima dos dias se impõe, parece haver sempre um apontamento a dar cor e animação:
    
Montagem de fotografias com sinais natalícios de Espinho (VO)

   A semelhança de outros apontamentos, chegou mais este para mostrar como foi decorar a festividade nas ruas e praças, com a magia natalícia. Não vi o Pai Natal, mas pode ser que ainda deixe qualquer coisinha na bota cá de casa.

    Só faltou a paz mundial que a época prenuncia, mas os homens renunciam.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Foi a vez do João Ratão...

      Diz o título que é "Uma história..."

     As autoras dizem que é uma peça de teatro "cheiinha de música e de cor". Eu digo que é um teatriiiiiinho bem sério, pelo que lembra, diverte e ensina.


Publicitação de Uma história do João Ratão, de Maria Clara Miguel e Maria Dolores Garrido

    Primeiro, porque protagoniza o João Ratão e secundariza a Carochinha (o preconceito do género dominante é de problematizar, mesmo quando se apresenta ao contrário); depois, mostra que nem tudo o que parece é (não é de esquecer que o aumentativo 'Ratão' está mais para a fraqueza, como o diminutivo do 'Quinzinho' está mais para o espertalhão, numa contradição de opostos); também procura mostrar o que faz o João Ratão cair no caldeirão, ou melhor, aponta a razão para este ser tão glutão na tradicional versão da história; por fim, recria, positivamente, um final que não era muito feliz e procura espreitar o "happy end" que a "História da Carochinha" não tem.
     Aprende-se que há sempre um motivo para o que se é (personagem ou pessoa); que temos de dar volta às coisas, para que não persista o "...Triste vida a minha!..."; que não tem de haver um final trágico na vida, desde que façamos por isso; que o passado pode ajudar a explicar o presente e evitar um futuro nefasto.
Breve dramatização de "Uma história do João Ratão" (Clube de Teatro da ESG)

     Há um rio e uma ponte a simbolizar passagem, o desvelamento do(s) mistério(s), um modo de ver as coisas que pode mudar - pois nem tudo é estável, imutável, definitivo. E não há como procurar ter outras perceções e perspetivas, para se poder ver o lado bom das coisas.
      Assim se dá a ler Uma história do João Ratão, que tem ainda um Burrico Tonico bem castiço e um Mocho Julião, um frade conviva e conciliador. Porque "quem canta seus males espanta", também há uns grilos cantantes que nos lembram melodias de infância com letras e ritmos muito contemporâneos, para encantamento do leitor e/ou do espectador.
      Ora, foi esta a receção deste pequeno grande livro, aquando da apresentação da obra nas Escolas Básicas de Anta e de Guetim, bem como na Escola Básica Integrada Sá Couto: momentos para almofadinha no chão, conversinha com a Maria Clara Miguel, um videozinho "fixe", um "ganda rap" e até uma leitura expressiva dramatizada, tal como o texto dramático o sugere / potencia.

     Um teatrinho para grandes e pequenos - já que isto de literatura infantil tem muito que se lhe diga!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Um quiasmo... no muro.

        A prova de que os recursos retóricos andam aí pelas ruas.

       Ou melhor, nos muros. Não se diga, portanto, que as figuras de retórica são para os textos literários, porque é bem redutor tal pensamento.
       Basta uma caminhada para nos cruzarmos com uma delas:

Quiasmo em paredão junto à praia - na Granja (Foto VO)

      Ao estilo vieirino (que tantas vezes recorreu ao quiasmo para expressar um pensamento moralizador nos seus sermões), veja-se uma repetição configurada numa construção reveladora de um paralelismo cruzado (se figurar em linhas prosaicas ou versos distintos) ou de uma ordenação contrária (do tipo AB - BA). Se o Homem come para viver, é bom que não viva para comer. Há como que um efeito de espelho, de reflexo, partindo a frase anterior em duas; um pensamento não deixa de ficar marcado: o da sobrevivência que não deve dar a lugar a excessos ou vícios.
     Há, portanto, uma simetria sintática a traduzir uma máxima ou moralidade significativa - prova de como a forma está de mão dada com o conteúdo para que tudo faça (algum) sentido.
     Com o exemplo fotografado, o primado da sensibilidade firma-se (só não sei se houve a mesma no ato de pintar a pedra de forma algo ousada). Talvez não resulte em vandalismo puro porque a verdade do escrito impõe-se face à frieza da racionalidade ou da pedra.

     Se são figuras retóricas, são da língua - falada ou escrita. Nem que seja no paredão de uma localidade próxima.

sábado, 10 de dezembro de 2022

A propósito de mensagens

     Hoje alguém me escrevia, lembrando-se de mim e da "Carruagem 23".

     Não sei bem por que razão, quando a fonte de tudo é a "Amarguinha". 
    Esta publicidade do conhecido licor tradicional algarvio é do melhor na denúncia de erros que podem comprometer uma relação:

Publicidade inteligente I (com agradecimento à AMT, pela lembrança)

        Ora cá está um bom critério para selecionar quem seja namoradeiro: que fale e escreva bem e não leve ninguém ao inferno (sim, porque o Hades é rio que não leva a mar paradisíaco). 'Hás de' (e sem hífen) leva a melhor caminho.

Publicidade inteligente II (ainda com agradecimento à AMT, pela lembrança)

      Cá está a prova de que a beleza não é tudo! Pelo menos, há que ser giro e escrever bem - e mais vale a beleza do saber, pensando que o final da mensagem é bem revelador de que mais vale ser feio, sólido (e não líquido, a ponto de se beber) e escrever 'bebeste'.

Publicidade inteligente III (desta feita sem agradecimento, porque selecionada por mim)

    Nada contra ser "poli", ou outra coisa qualquer, desde que "o sono" e "a preguiça" sejam acompanhados de "a vontade" (pela regularidade sintática conveniente na coordenação) e o "permanente" (adjetivo) dê lugar, por exemplo, a "permanentemente": 'estar de férias' (quem não quer!) é expressão verbal cuja modificação está mais para um advérbio (com valor de modo, de tempo ou de lugar). 
      Digamos que, neste caso, a estratégia publicitária não resultou em pleno, na sua construção, porque isto de ter vários amores não pode fazer esquecer que a ortografia, a morfologia e a construção sintática são áreas muito exigentes no uso da língua e todas requerem muito cuidado e muita atenção.
      Conclusão: terá sido a lembrança por me acharem amargo (já que, de "Amarguinha", nem vê-la nem cheirá-la)?! Por me pensarem homem com muitas relações (estou mais para as ralações)?!
      Vamos lá levar a "carruagem" no trilho, antes de a fazer parar a meio do percurso ou a imobilizar na estação!

     "Errare humanum est" (errar é humano) já diziam os clássicos latinos. Acrescentaria "Perseverare autem diabolicum" (perseverar no erro é diabólico). Se a "Amarguinha" ajudar, ... (conclua-se o que não vou sequer ajuizar).

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Descubra as diferenças

     Quando se celebra e se faz render uma vitória, tudo acontece.

     Depois do jogo Portugal - Suíça, com a vitória lusa por 6-1, defende-se que a partida irá ficará na história, na memória coletiva dos portugueses. Assim o dizem os comentaristas que falam, e falam, mais falam...
     Ora, por falar em memória, esta anda fraca no programa televisivo "Noites do Mundial" (na RTP3). No acompanhamento da entrevista ao treinador Fernando Santos, as legendas vão passando e repetindo informações, citações...
      Bastam segundos para os leitores descobrirem as diferenças:

Numa televisão segundos antes (com o agradecimento à TJ, que enviou foto)

Na minha televisão segundos depois, e fui eu a tirar a foto (Foto VO)

      Começou mal; acabou bem. Antes assim! 
    A diferença não está nos aparelhos televisivos nem na posição do entrevistado. O Fernando é o mesmo, mas não há santos que impeçam o mal de aparecer: a memória da escrita anda muito volátil, particularmente quando se esquece que o tempo passado, a duração temporal é escrita com "há" (o tempo que passou, que existiu, que deu ou dá lugar a um período com duração) e, de preferência, sem o "atrás", para não ser pleonástico.

      Vale a correção (do erro). A ela se dê a devida atenção (à correção, claro). E viva a seleção (de futebol)!