domingo, 13 de janeiro de 2013

O sentimento de si...

     Podia falar do livro de António Damásio, um dos que focam o erro de Descartes e de como o clássico "Penso, logo existo" está mais para "Sinto, logo existo".

     O tema deste apontamento, contudo, é outro e vem na sequência do visionamento de "Anna Karenina", filme realizado por Joe Wright para uma obra mundialmente reconhecida.
   Quem lê o prospeto do cinema fica a saber que se trata da história de amor adaptada (por Tom Stoppard) da obra homónima de Léo Tolstói, com a intriga a desenrolar-se na Rússia dos finais do século XIX. Aí se explora a capacidade para amar, associada ao coração humano, à paixão vivida no seio de relações adúlteras, à ligação entre uma mãe e o filho sustentados por interesses e aspirações aristocratas. Todavia, o balanço do filme aponta para algo bem mais abrangente do que o romance de um dos grandes mestres da literatura russa oitocentista, no qual se denunciam triângulos amorosos, a hipocrisia de uma época e se assume a perspetiva de um dos retratos femininos mais profundos e sugestivos da escrita romanesca universal.


     Trata-se de uma película marcada por um forte pendor estético, interartístico (cruzando literatura, música, dança, pintura, teatro), por um registo densamente fragmentário na sequência fílmica, explorando analogias entre a ficção feita real e a ficção vivida num palco e nos bastidores de um teatro. Entre uma e outra, fazem-se tantas passagens quantas as portas que se abrem para se abordar o pensamento e o sentimento, a razão e a emoção, a discussão entre as convenções sociais e as liberdades individuais, os sentidos do dever, do sentir e do querer.
       A relação de Anna Karenina com o conde Vronski é apenas um ingrediente numa relação que ameaça expectativas (as de Kitty, que recusa o amor de Konstantin Levin), estabilidade e racionalidade (pretendidas por Karenin, marido de Anna), fronteiras na arte (a tela de cinema e a de um quadro como 'No alto da Montanha', de Caspar David Friedrich, ou 'Mulher com uma Sombrinha', de Monet), leituras lineares (tanto na relação livro-filme como nos percursos e buscas de felicidade na ficção-vida), visões redutoras.
        No fim, resta a fuga final de Anna (que, invadida pela incompreensão em que se vê, se entrega a uma saída que, afinal, também fora um sinal de aproximação e de entrega ao sentimento que quis viver até quando o pôde), a descoberta de Konstantin (na procura de felicidade, reencontra a possibilidade de sentir, longe do universo citadino), a entrega do político Karenin (a alguma cor emotiva, longe do limiar do teatro social, no campo e na companhia dos filhos de Anna), numa reconstrução de quadros em que o palco é invadido pela vida.

        Em Anna Karenina, livro, o início sublinha que "Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes são-no cada uma à sua maneira". Pela singularidade que estas apresentem, revê-se uma "Anna Karenina", filme, com traços estéticos de romantismo artístico, de afirmação de individualidades (pois há tantos amores quantos os corações), na consciencialização de que os contrastes comple(men)tam a vida.