quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Atitudes e valores... com conta, peso e medida!

      Quando de avaliação pedagógica se trata, a discussão é grande, porque os tempos (e os conceitos) são outros.

      Vem esta reflexão a propósito da circulação por aí (Facebook, grupos de apoio, grupos de discussão, outros de formação...) do que são os critérios de avaliação e a construção de rubricas de aprendizagem, à luz das mais recentes conceções de avaliação pedagógica.
    Na continuidade da tradição, vão aparecendo, inclusivamente, rubricas específicas para avaliar apenas as atitudes. Caso para dizer, lá se vão os novos (?) contributos, em detrimento de rotinas e de tudo o que o passado ditou e contestou: a manutenção da separação de atitudes / valores / comportamentos relativamente ao conhecimento / saber / domínio cognitivo. Pior ainda quando se quer reverter tudo em termos de quantificação, de número, de nota, de classificação, com ponderação, nomeadamente, para ambos e de forma bem distintiva (entre os 10-50% dos primeiros e os 90-50% do segundo, há de tudo um pouco e para todos os gostos). Há mesmo quem diga que a novidade não vai durar muito e que o tempo provará que isto de juntar atitudes e conhecimentos é "misturar competências". (Enfim!). 
     Substituiria 'misturar' por 'integrar': falar de competências é precisamente considerar conhecimentos, aptidões, ou procedimentos, e atitudes / valores em integração, a que não falta a avaliação contextualizada desta composição integrada.
     Disso mesmo trata o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória - PASEO (homologado pelo Despacho 6478 / 2017, de 26 de junho), quando configura um entrançado para a noção de 'competência':

Slide exibido na Oficina de formação "Projeto de Flexibilidade Curricular: nas dinâmicas da escola e da sala de aula"
(formadores: Maria Gabriela Rodrigues e Vítor Oliveira)

       E lá estão as atitudes/os valores incorporados, num entrecruzamento que define as 'competências' orientadas para a 'ação'. No enquadramento da flexibilidade curricular (Dec.-lei 54 / 2018 - alterado pela Lei 116/2019 - e o Dec.-Lei 55 /2018), não faz, portanto, qualquer sentido isolar um dos elementos da composição.
       Relativamente ao facto de, no seu projeto educativo, uma escola inserir o desenvolvimento e a avaliação de atitudes (que se constituem como dimensão fundamental do desenvolvimento integral da personalidade dos jovens), é possível afirmar que a instituição escolar sempre as considerou, na valorização de umas e na desvalorização de outras, ao definir regras de conduta; propor dinâmicas de grupo; orientar interações de modo formal e estruturado; enquadrar atividades extraletivas; dinamizar atividades ou projetos centrados na área de cidadania e desenvolvimento. Numa dimensão eminentemente formativa, a observação e a avaliação contínuas facultam a informação atualizada, a recolha de dados e a eficácia de decisões tomadas a partir de grelhas de observação, entrevistas, questionários, listas de verificação, entre outros instrumentos. Relevante é o facto de os alunos demonstrarem boas atitudes e/ou as aprenderem, para que contribuam para uma imagem integral positiva em contexto de ação escolar e educativa.
       A este propósito, quando se afirma que toda esta questão é nova (na sequência dos decretos 54 ou 55, já com três anos de aplicação), tendo de ser melhor pensada e com calma, apetece-me lembrar uma brochura intitulada Reorganização Curricular do Ensino Básico - Avaliação das Aprendizagens: Das concepções às práticas (Ministério da Educação - Departamento da Educação Básica, Março 2002, pp. 11-13), na qual já se podia ler, e cito:

"4. A absoluta necessidade de repensar práticas uniformes e pobres de avaliação que não estão de acordo com a actual formulação do currículo nacional. A perspectiva do currículo nacional associa a competência a um "saber em uso" que se desenvolve em relação com a vivência de experiências de aprendizagem significativas e adequadas e que, ao mesmo tempo, integra conhecimentos, capacidades, atitudes e valores. Neste sentido, a competência não se identifica com um "comportamento" que se treina e manifesta num momento preciso e num tipo específico e pré-determinado de situações, que supostamente estaria ou não "adquirido". Esta perspectiva implica que a avaliação do desenvolvimento de competências tem que basear-se na observação do que aluno faz (e da sua evolução) em diferentes momentos e em diversos contextos, assim como em situações que, pela sua própria natureza, apelem ao recurso integrado a conhecimentos, capacidades e atitudes."

     Este é o quarto ponto (precisamente de uma sequência de quatro: 1 - ênfase no carácter formativo da avaliação; 2 - afirmação da lógica de ciclo; 3- importância da autoavaliação regulada; 4 - repensar práticas, integrando conhecimentos, capacidades e atitudes) estruturante para o enquadramento normativo do Despacho nº 30 /2001 (avaliação do ensino básico). Sublinho: 2001 e "recurso integrado a conhecimentos, capacidades e atitudes". Passados vinte anos, o texto e o propósito não são muito diferentes, orientando-se, agora, para um paradigma de competências, que volta a sublinhar a integração das atitudes / valores / comportamentos a par de conhecimentos e de procedimentos. Ainda assim, muita gente sente ser ainda uma novidade, para pensar e considerar com calma.
      Inquietante, ainda, é voltar à constatação de que, não obstante o princípio orientador da integração e do entrecruzamento do PASEO, há quem esteja a trabalhar nos moldes da separação e mesmo focado na quantificação, no peso e na classificação. Volta-se ao primado da avaliação positivista, da avaliação como medida, como nota, como orientação primordial e absoluta. E a tudo isto se parece reduzir a avaliação: a classificação. Aliás, muita discussão centra-se e reduz-se a esta racionalidade pretensamente objetiva, numérica e de aplicação igual a todos, nomeadamente com o peso que tem de ser atribuído (se 10, se 20, se 30 ou até 50% da nota final). Perde-se o sentido formativo, a observação sistemática, a realidade contingencial e contextual, o processo de aprendizagem.
    Assim, ler o PASEO é apontar para uma orientação distinta: a da avaliação pedagógica, no predomínio e na sistematicidade da avaliação formativa, focada nas aprendizagens e na interação social necessária à formulação de um feedback oportuno e de qualidade, na integração dos conhecimentos, procedimentos e atitudes e valores, com avaliação recorrente das etapas dos processos e não tanto dos produtos.
       Ainda na sequência deste raciocínio, e para que não o acusem de ser teórico, vão as palavras de um professor que, muito certeiramente, põe o dedo na "ferida". Cito:

Segmento de uma comunicação sobre avaliação pedagógica (Luís Timóteo Ferreira)

      Assim o afirma Luís Timóteo Ferreira, num artigo que pode ser consultado a partir do título “Refletir sobre a prática: o problema da avaliação nos 2º e 3 ciclos”. conferência proferida no Sindicato dos Professores da Madeira (SPM), no âmbito do Encontro Autonomia e Flexibilidade Curricular – Virtudes e Fragilidades (Funchal, 23-24 de novembro de 2018). Subscrevo a posição, alargando-a ao nível de ensino secundário.
       Situo a questão das atitudes e dos valores no nível das transversalidades da ação escolar e educativa. Nelas encontram-se configurados princípios relacionados com a cidadania, bem como o trabalho (nomeadamente, iniciativa, responsabilidade, integridade, autonomia), a comunicação (trato e adequação), mais a utilização das tecnologias de comunicação e informação (respeito, tratamento, sentido crítico). Todos eles se relacionam, por implicação ou demonstração consecutiva, com conhecimentos e procedimentos - pelo que a integração é inevitável.
        Na correlação das atitudes com emoções, cognições e comportamentos (conforme a apresenta Gonzalo Maicas, em "Actitudes" in Sociologia y psicologia social de la educación, Madrid, Ediciones Anaya, 1986, pp. 152-179), trata-se de mais um contributo para a discussão genérica do pensamento pedagógico reformador do século XX e da Escola Nova, não obstante as diferenças das várias correntes pedagógicas entretanto surgidas: a articulação e interdependência das capacidades intelectuais, emocionais, sociais e manuais, nessa visão do desenvolvimento integral e da autonomia da criança. Processos cognitivos e afetivos entrecruzam-se em influência mútua - linha de investigação que se funda desde os contributos de Vygotsky (1998) nos anos 20 do século XX. Uma das ideias fundamentais deste psicólogo russo, plasmada no conceito de zona de desenvolvimento proximal, é a de que relações concretas entre pessoas estão associadas ao desenvolvimento das funções superiores, tornando‑se, portanto, fundamentais as atitudes de ajuda e apoio exercidas pelo professor. Recentes investigações no campo das neurociências têm vindo a sublinhar como emoções, sentimentos e consciência não são estranhos nem separados; sentimentos e emoções assumem um forte impacto na mente, podendo dizer‑se que constituem as raízes da consciência - assim o lembra António Damásio, 2000, como o seu O Erro de Descartes. Nesta medida, avaliar aprendizagens implica considerar tanto aspetos intelectuais / cognitivos como emotivos e atitudinais, enquanto duas faces de um mesmo processo: o da(s) aprendizagem(ns).
    Numa folha de trabalho intitulada "Diversificação dos Processos de Recolha de Informação (Fundamentos)", da autoria do Professor Domingos Fernandes e contemplada numa formação de professores relacionada com o Projeto MAIA (Monitorização, Acompanhamento e Investigação em Avaliação Pedagógica), lê-se o seguinte:

     "... as atitudes, os comportamentos em geral, as capacidades e os conhecimentos escolares devem ser considerados aprendizagens inse-paráveis e, como tal, avaliados de forma tão integrada quanto possível.
(destaques da minha responsabilidade)

       A bem da integração, vejo a avaliação das atitudes e valores em relação intrínseca com os conhecimentos e procedimentos que, por um lado, definem a noção de competência e, por outro, revelam a dimensão integral do aluno no(s) processo(s) da(s) aprendizagem(ns). Contemplando, em rubricas de aprendizagem, critérios atitudinais no seio de outros mais focados na dimensão cognitiva, a visão integrada da avaliação constrói-se (sem necessariamente ter de fazer "grelhas" - mais umas quantas - para isso).

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Da imprescindibilidade de um dicionário

        Sou do tempo em que se pedia um, em suporte livro, para cada sala de aula.

    Hoje, basta um computador ou telemóvel para facilmente se ter acesso ao dito material imprescindível para qualquer aula (de língua ou não).
     Direi que, quando falo de ósculos ou amplexos, os alunos julgam que os estou a insultar. E estou a ser tão afetivo! Só não o sou quando sistematicamente usam o verbo 'meter' onde não devem ou dizem para eu esperar 'um bocado'. Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Pintura do poeta Bocage 
no Palacete do Conde de Carcavelos (Braga)
    «Conta-se que Bocage, ao chegar a casa, um certo dia, ouviu um barulho estranho vindo do quintal. Chegando lá, constatou que um ladrão tentava levar os seus patos de criação. 
 Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o a tentar pular o muro com os seus amados patos, disse-lhe:
-Oh, bucéfalo anácrono! Não te interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo... mas, se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada!
    E o ladrão, confuso, diz:
    - Doutor, afinal levo ou deixo os patos?»

      Sinto-me qual ladrão sem saber o que fazer. Não quero roubar ninguém, mas vou tratar de ir à procura de algumas palavras tão eruditas, tão arcaicas e (neo)clássicas.

      Neo..., sim, seja pelo tempo representado em que foram supostamente ditas (na segunda metade do século XVIII) seja por aquele em que podem vir a ser recuperadas. Amplexos!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Má publicidade! E o defeito não está na cidade.

     É o que dá quando a escrita não acompanha a "qualidade do serviço".

    Em conhecido e popular programa televisivo, é costume os concorrentes ofertarem o apresentador com produtos de marca local. Foi a vez de Espinho aparecer no écran. A prenda de um calendário de parede, dedicado a Fernando Mendes, não deixa parecer "prenda armadilhada", linguisticamente falando:
     
Lembranças com defeito na expressão do tempo (para não falar de outros mais)

   Quando o Salão Vieira já conta com 32 anos, era bom que se escrevesse "há 32 anos", com 'h'. Já passaram mais de três décadas; logo, o tempo passado, a duração e a existência são grafados com ' X tempo'.
    Podia comentar a imagem pelo clube de que não sou adepto; podia opinar sobre um programa de televisão que não aprecio (e dura... qual pilha Duracell); porém, saltou-me aos olhos um tempo que não foi corretamente expresso na grafia.

     Devia haver maior cuidado com as prendas que se dão, quando traduzem o tempo na sua duração.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Dúvidas na planificação da gramática

       Tanta coisa há a resolver que, às vezes, escapa a todos o essencial.

     Perguntavam-me há dias algo sobre a planificação de conteúdos gramaticais nas "Aprendizagens Essenciais" do Português, no nível secundário:

      Q: Olá, Vítor! O complemento do advérbio faz parte das Aprendizagens Essenciais (AE)? E o valor temporal? Agradecia que me esclarecesses, por favor, pois achava que não.

    R: Olá. A leitura das Aprendizagens Essenciais, quanto ao domínio da gramática, no ensino do Português do nível secundário, propõe algumas especificidades para cada um dos anos de escolaridade (10º, 11º e 12º anos). Fazendo uma abordagem comparativa dos conteúdos propostos, é possível verificar o conjunto de dados seguinte:

Leitura comparativa do domínio gramatical nas Aprendizagens Essenciais de Português (Secundário)

      Este é o "programa" gramatical referenciado para os três anos de escolaridade do secundário (10º à esquerda; 11º ao meio; 12º à direita).
      Ora, quando no ano terminal deste nível de ensino se lê "Realizar análise sintática com explicitação de funções sintáticas internas à frase, ao grupo verbal, ao grupo nominal, ao grupo adjetival e ao grupo adverbial", uma função sintática interna ao grupo adverbial é precisamente a do complemento do advérbio. Pode mesmo indicar-se que há uma progressão, complexificação neste ponto do domínio, pois, no 11º ano, interessa "Sistematizar o conhecimento dos diferentes constituintes da frase (grupo verbal, grupo nominal, grupo adjetival, grupo preposicional, grupo adverbial) e das funções sintáticas internas à frase" (ao nível superior da frase, portanto), enquanto no 12º o foco se situa ao nível interno dos grupos, para além do da frase. De referir, ainda, que já no 10º ano se prevê o trabalho do complemento do nome e do adjetivo (isto é, funções sintáticas internas ao grupo nominal e adjetival, respetivamente).
        Quanto ao valor temporal (depois da abordagem dos valores modais, no 10º ano, e dos aspetuais no 12º), não se poderá dizer que desapareceu do "programa" (se confrontarmos com o que acontecia nas Metas de Aprendizagem). Trata-se de um conteúdo gramatical que acabará por, implicadamente, ter de ser abordado a propósito dos processos de coesão textual contemplados no 11º e 12º anos (nomeadamente, quando se tem de utilizar / abordar / explicitar a correlação de tempos na construção de enunciados e a localização das situações nestes referidas).
        Uma leitura comparativa mais completa das Aprendizagens Essenciais, iniciadas há dois anos no 10º ano de escolaridade e alargadas ao 12º no presente ano letivo, pode ser encontrada aqui, de acordo com os domínios de aprendizagem considerados no ensino secundário.

       Hoje em dia, a preocupação é capacitar os professores de competências digitais (até se responde a um inquérito que visa diagnosticar os níveis de competência docente nesse domínio). Anuncia-se formação futura para tal, como prioritária; esquece-se que pouco disso vale, quando a formação didática e específica é tida como algo mais do que adquirido, do tipo "o ar que respiramos".

sábado, 16 de janeiro de 2021

O poder da polissemia e da argumentação

       Nunca a polissemia foi tão argumentativa na mensagem institucional.

       Em tempos com números tão assustadores (nos infetados e nas mortes), há palavras que marcam a sua polissemia, na conjugação com a força impactante da imagem:

A disjunção (ou) não pode ser escolha - tem de ser apelo à vida.

     Proveniente do latim (patiens, -entis), o termo 'paciente' admite realização tanto nominal como adjetival. Seja para significar o que se conforma ou resigna, o que tem paciência, o que tranquila e serenamente aguarda, o que persiste, seja para designar o que padece ou se submete a tratamento médico, bom seria que não significasse aquele que vai sofrer a (pena de) morte.
       Há na publicação institucional uma disjunção ('ou') que não pode dar lugar a escolha ou hipótese. Argumentativamente só pode resultar no convencimento, na persuasão, no apelo à vida.

      Por ora,  a realidade é dura. Fica a esperança de que os tempos venham a ser outros, mais tranquilos, mais serenos, sem a doença nem a morte. A impaciência e o receio andam por aí, mas o valor da vida tem de prevalecer. Fique(m) em casa.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

A melhor resposta

        Na sequência, não de uma pergunta, mas de um comentário torpe, ignóbil.

     Depois de um candidato a presidente da República ter comentado sobre os "lábios muito vermelhos" (de forma insultuosa e insidiosa) de uma também candidata à presidência, a melhor resposta foi dada por um jovem:

Uma imagem que vale por si só contra a falta de tudo de um candidato a presidente da República

      Pintando os lábios de um vermelho bem vivo, assumiu solidariedade para com as mulheres que se sentiram, e bem, ultrajadas pelo comentário indecoroso, falocrata, absurdo; afirmou a inclusão, mostrando que esses mesmos lábios não separam homem de mulher, independentemente da cor (por vermelho que seja); revelou que é bem melhor um homem de lábios pintados de vermelho do que humanos que mais parecem ovelhas negras runhosas.
       Melhor (a bem das ovelhas, tão mais preferíveis e inofensivas face a tais humanos, tão sórdidos e vis): uma resposta à altura de quem é grande, quando tem de se confrontar com a pequenez de espírito, de educação e de humanidade. 
       Encaremos a questão no seu absurdo: houve, há sempre alguém que tem gostado de ouvir burros ou asnos a (a)zurrar, ornear, ornejar, rebusnar... tudo palavras lindas aos ouvidos dos prosélitos.

       Há limites, mesmo para quem, como eu, sou mais azul! Viva o vermelho! (Cada vez mais se vive o sentido de se votar pela democracia, contra discursos e comentários próprios de visões de índole facciosa, cínica e autocrática).
         

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Depois do confinamento, o confinamento.

      Passa o tempo. O que muda?

      Mudaram os dias, as semanas, os meses e o ano. Mudou o clima. Como diria Camões, "Todo o mundo é composto de mudança".
      Passado o confinamento geral anterior, vem aí o confinamento, de novo. Dizem que é geral, mas até o sentido do 'geral' mudou. O certo é que também mudou (para muitos mais) o número de infetados, de internados, de mortos. Parece é que não mudou o comportamento inconsciente de algumas pessoas, das que promovem e insistem em celebrações, festas, ajuntamentos e proximidades impensáveis.
    Até ao final do mês (por ora), voltamos a um mesmo que não é bem o mesmo; permanecem a preocupação, o distanciamento, o isolamento, o receio, a angústia. 
      Apetece já a mudança, que não pode acontecer.
      Por isso...

Estratégias de sobrevivência 

       Digamos que a perspetiva é já outra. Vamos em frente, com a esperança de que é possível fazer melhor, para todos nós.

      Aproveita, Snoopy, enquanto não te mandam para dentro da casota!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Sem semelhança; com propósito.

       Quando e onde menos espero, está o erro a olhar para mim!

       Há que seguir alguns cuidados, nomeadamente nos tempos que correm (tão exigentes para a nossa segurança). Outros farão parte do dia-a-dia comum, ainda que haja a necessidade de os lembrar, nalgumas circunstâncias. 
       Quando num local público encontras um destes avisos (escusado, diria, pelo que nele se lembra), apetece corrigi-lo, de imediato, pela forma como está escrito:

Um aviso a seguir, exceto nos erros que apresenta (Foto VO)

      Já não bastava a falta de um acento em "PAPÉIS" e de uma vírgula depois de "SANITA", vem-me aquele 'afim' a todo o despropósito.
       A intenção (ou o propósito, a finalidade) traduz-se com a expressão "A FIM DE", sinónima de 'para (que)', 'com o objetivo / intuito / propósito de' ou 'com a finalidade / intenção de'.
    Confundir 'afim' (sinónimo de 'semelhante', 'igual') com 'a fim de', para lá da aproximação homofónica dos termos, resulta de um desconhecimento assente na falta de leitura, na redução lexical e no recurso a um vocabulário que, não caído em desuso, já não tem reconhecimento gráfico capaz de distinguir realidades de significado bem diferenciadas.
       Assim, uma coisa é dizer que 'X é afim de Y' (com X e Y a serem iguais ou semelhantes); outra bem distinta é 'X estar a fim de Y' (com X a querer / desejar fazer Y).

    Espero, portanto, que, depois do aviso, não entupam a sanita, a fim de não dar trabalho desnecessário à gerência; mas, a fim de escrever bem, é preciso não confundir palavras / expressões bem distintas.
 

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Cores quentes

     Quando o frio é mais que muito!

     E nem se pode dizer que seja inverno rigoroso, a julgar pelo que acontece na vizinha Espanha. Lembro-me das filas de trânsito, há dois anos, nas seis faixas da autoestrada à entrada de Madrid. Hoje noticiava-se que a capital espanhola tinha apenas uma para transitar, já que as restantes estavam cobertas de neve, com uma altura de três metros.
   Dizem que são efeitos do frio polar chamado "Filomena". Há que ligar aquecedores e ares condicionados para que tudo fique bem mais quentinho. Já não me lembrava de fazer isto há coisa de três invernos.
      Hoje, apesar da estação, as cores do pôr do sol eram quentes, de tão luminoso este se mostrava:

Pôr do sol em cor quente quando o tempo é de frio (Foto VO)

      Quentes, só as cores, porque a aragem fria, surgida a partir das cinco da tarde, fazia-se sentir cortante na pele.

      Até as máscaras, por causa do Covid-19, se tornam agradáveis, para proteger da inalação do ar frio. Vai-te embora, Filomena!

domingo, 10 de janeiro de 2021

Outra vez! Não!

      Prestes a terminar o domingo, lá vem o trauma.

     Por antecipação, começa o stress.
     Pior ainda quando se encontra uma mensagem destas:

A vontade do mundo ao contrário

    O melhor da imagem é mesmo o gato!
    O pensamento é arrepiante, no conteúdo e na forma (segunda-feira sem hífen e ninguém sem acento). Valha-me Deus!

     Por que razão a segunda-feira está tão distante da sexta?! Ai, era bom começar a semana à sexta!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Rubricas de (avaliação para) aprendizagem : domínio da oralidade (produção oral formal)

       Fica a sugestão de um trabalho para a avaliação da oralidade (produção oral).

     Vem este apontamento a propósito da preparação de uma atividade de oralidade (produção oral formal), na disciplina de Português (nível secundário), planificada segundo a matriz de uma rubrica de aprendizagem. Contempla esta última: (i) indicação da tarefa; (ii) condições de operacionalização; (iii) critérios de sucesso a considerar; (iv) associação dos critérios a descritores e níveis de desempenho; (v) práticas de auto e heteroavaliação. 
      Perante o propósito de levar uma turma de 12º ano a produzir um discurso autónomo, completo, planificado e estruturado para um público (ainda que familiar), orienta-se a tarefa para um projeto de trabalho assente em pensamentos do semi-heterónimo pessoano e, na base do Livro do Desassossego, na formulação de um posicionamento concordante ou discordante sobre um pensamento / uma frase de Bernardo Soares. Em vez de se indicar mais um livro, para além das obras já propostas no programa, propõe-se que cada aluno se posicione face a um pensamento selecionado, relacionando-o com a vida, a leitura, a arte, os conhecimentos do mundo, entre outros. 
     Ainda que no cruzamento de vários domínios (nomeadamente, a leitura e educação literária e, eventualmente, a escrita), sai destacado o da oralidade, cujo processo de recolha de informação estará centrado na própria produção oral (a ser observada por professores e alunos).

     Planificação de uma rubrica de avaliação para aprendizagem na oralidade

     Explicitada a tarefa (pela sua instrução), os passos e as condições da sua operacionalização, encaminha-se a turma para a definição dos critérios específicos da atividade, enquadrados pelos que dizem respeito às Aprendizagens Essenciais do Perfil à Saída da Escolaridade Obrigatória (PASEO).

Critérios e níveis de desempenho associados ao domínio da oralidade (formal), 
a partir das Aprendizagens Essenciais do PASEO

       Dado estarem já considerados níveis globais de desempenho (N1 a N4), segundo decisão do agrupamento escolar, aplicam-se estes últimos aos critérios específicos associados à tarefa, configurados em descritores que permitem ora preparar desempenhos mediante o explicitado (no âmbito das expectativas) ora proceder à avaliação do processo segundo esses mesmos (no âmbito da consecução), sem fechar um cenário de negociação / reformulação de algum aspeto, à medida que a atividade decorre.

Critérios específicos para a rubrica construída 
(com descritores e níveis de desempenho)

     Planificada e estabilizada a rubrica (instrução, procedimentos no processo, critérios e níveis de desempenho), podem os alunos orientar-se progressivamente na concretização das etapas que conduzirão à produção / expressão oral frente à turma.
      Na consciência e na transparência da avaliação a fazer, podem os discentes, a todo o momento, ser confrontados com o caminho feito e o planificado, mais os critérios considerados. Com ou sem ajustamento destes últimos, a mensagem de que a produção oral será avaliada em função deles é sempre a oportunidade de exemplificar o que deve ou não fazer-se nesse momento. Será também a ocasião para a negociação de alguma reformulação e, mesmo, a preparação do que virá a ser a auto e heteroavaliação, funda(menta)da nos critérios / descritores / níveis de desempenho definidos.
      A rubrica aqui desenhada tende, naturalmente, para uma conceção de avaliação pedagógica orientada para a aprendizagem, pelo que ela tem de explicitação da tarefa e do que esta implica, em termos de conhecimentos, procedimentos e atitudes / valores previstos ou planificados. A etapa final, na súmula do processo levado a cabo e do produto apresentado, constituirá um momento de registo mais focado em indicadores precisos, dados decorrentes dos critérios, a que não escapa também a consideração de atitudes e valores - desde logo os que decorrem do cumprimento ou não da tarefa (com os passos intermédios e/ou finais); da atenção e da persistência no tratamento informativo; da adequação ou não do discurso; da disponibilidade e da colaboração para com o auditório; da autonomia maior ou menor face ao processo produzido e/ou face a outros suportes; do respeito pelo tempo destinado ao trabalho e/ou pelo auditório para o qual se discursa. A integração é natural na avaliação pedagógica, em suma.

       E sublinho o sentido da palavra 'avaliação'. Quanto à classificação final, o assunto é já outro - mais focado no produto, nos indicadores colhidos no momento da execução / produção oral, numa quantificação, nota que não deverá deixar de contemplar as diferentes etapas associadas à tarefa.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Dia de Reis no século passado e no presente

     Depois do Natal e da passagem de ano, chega a vez do Dia de Reis.

    Já lá vai o tempo em que a festividade dos reis ficava abrangida pela pausa letiva (e ninguém ficou traumatizado ou aprendeu menos por isso). Hoje, é na vizinha Espanha que se dá importância aos ditos, com a troca de prendas natalícias precisamente na passagem da véspera para o dia de hoje. Faz sentido, atendendo ao facto de os três reis magos - Belchior, Gaspar e Baltazar - também terem levado, ofertado ao menino ouro, incenso e mirra.
     Há mais de um século, outros reis ofereceram ao menino "Futuro" a Democracia, o Socialismo e até mesmo o Niilismo. Trata-se de uma ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro, publicada no jornal A Paródia, à data de 7 de janeiro de 1904.

Os Reis (e os presentes), ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro (1904)

   Numa alusão aos Reis Magos, Bordalo Pinheiro recriou o episódio do Novo Testamento, num paralelismo com os monarcas da Europa do início do século passado. Montando camelos, vão adorar o "Futuro". Levam-lhe 'ismos' de cariz muito ideológico: o rei de Inglaterra (Eduardo VII) leva o socialismo e a democracia; o czar da Rússia (Nicolau II), o neocristianismo e o niilismo; Francisco José da Áustria, o socialismo; o Kaiser Guilherme II da Alemanha, a social-democracia; o rei de Itália (Vítor Manuel III), o anarquismo e o socialismo; Afonso XIII de Espanha, o cantonalismo e o iberismo; o rei sueco, o separatismo. 
   Um não é soberano: o presidente francês (Loubet).  Oferece o cosmopolitismo e o socialismo. Digamos que, na procissão, este era um a fazer alguma diferença.
     Hoje, a diferença talvez residisse numa dádiva mais comestível:

Os três reis magos e o outro, que não é mag(r)o - tradução e adaptação VO

     Há reis que sabem aproveitar a oportunidade! 

    Não sei se o Futuro ficou bem servido com estes reis (mais um presidente). Hoje diria que o monarca maior seria aquele que presenteasse a atualidade com mais humanismo, sentido de justiça e saúde.

sábado, 2 de janeiro de 2021

Das primeiras do ano

     Começa o ano com o frio polar da manhã e da noite.

     O sol brilha, aquece o que pode ao final da manhã e início da tarde. 
   A Natureza agradece, depois da chuva dos dias anteriores, nela germinando já algumas pequenas, viçosas e coloridas flores entre o verde refrescado que cobre o chão.
     Também a árvore despida do lugar se dá a ver mais radiosa na sua ramificação:

A árvore do lugar que dizem ser de vale bom (Foto VO)

       Não é pinheiro, mas lembra ainda o Natal, decorada que está de brancas nuvens, azulado céu, fluido rio, frondoso arvoredo na outra margem, mais a luminosa estrela a irradiar a energia e o calor desejados.
     Chegará a sombria frialdade, temporizada nas passadas contadas ao segundo nesse caminho de regresso, contrário a uma seta que, no chão, dá rumo e sentido(s) para a foz e para o mar.

       Nesta margem, a árvore ficará mais escura e transida num entardecer que rapidamente arrefece.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

"Não há guitarras nem cantar de amigo..."

      Não começa da melhor forma o ano, para a música portuguesa (e do mundo).

    Anunciada a morte de Carlos do Carmo, não se pode dizer que seja uma surpresa, dada toda a preparação da despedida artística em novembro passado, em concertos no Porto e em Lisboa. Feito o agradecimento público a quem o acompanhou como cantor, chegava o tempo de um afastamento e uma preparação para a hora que hoje se cumpriu. 58 anos de carreira sóbria, rigorosa e consolidada; 81 de idade são sinais de um percurso humano cuja previsibilidade pode ser confirmada, mas nunca desejada.
    Dizem que foi o renovador do fado. Fosse este último interpretado mais ou menos como canção, teve sempre a sonoridade rítmica, vocal e instrumental típica que identificou Carlos do Carmo como fadista de renome. Também com a sua ação persistente, em muito contribuiu para que o fado conquistasse a categoria de Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela UNESCO (numa declaração aprovada em novembro de 2011, no VI Comité Intergovernamental, em Bali, na Indonésia).
    Aqui fica um registo do que foram as minhas primeiras memórias para esse grande intérprete nacional (e não só). Foi a experiência de um Festival da Canção Português, todo cantado por Carlos do Carmo. Algumas das cantigas concorrentes, não tendo vencido, acabaram por se tornar músicas para todo o tempo, em várias versões (o caso de "No Teu Poema", "Estrela da Tarde"). A vencedora, "Uma Flor de Verde Pinho", contava com a participação de Manuel Alegre (autor da letra) e José Niza (composição musical), versando já sentidos, símbolos e referências da cultura, história e literatura portuguesas (com as "flores de verde pino", de D. Dinis; os amores de Pedro e Inês; o "fogo amor" camoniano; o mar da diáspora nacional):

Versão de "Uma Flor de Verde Pinho" (no Festival RTP da Canção)

UMA FLOR DE VERDE PINHO

Eu podia chamar-te pátria minha 
Dar-te o mais lindo nome português 
Podia dar-te um nome de rainha 
Que este amor é de Pedro por Inês. 

Mas não há forma não há verso não há leito 
Para este fogo amor para este rio. 
Como dizer um coração fora do peito? 
Meu amor transbordou. E eu sem navio. 

Gostar de ti é um poema que não digo 
Que não há taça amor para este vinho 
Não há guitarras nem cantar de amigo 
Não há flor, não há flor de verde pinho. 

Não há barco nem trigo, não há trevo 
Não há palavras para dizer esta canção. 
Gostar de ti é um poema que não escrevo. 
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.

       Assim se representou Portugal na Eurovisão, em Haia (Holanda), em 1976:

      Versão de "Uma Flor de Verde Pinho" (no Festival da Eurovisão, em Haia)

     Recentemente galardoado com o Grammy Latino de Carreira (2014), a Rádio Comercial prestou-lhe uma merecidíssima homenagem, convocando várias vozes nacionais de diferentes gerações para cantar um dos seus fados mais populares, dedicado à cidade que o viu nascer e morrer: "Lisboa, menina e moça".

      Homenagem a Carlos do Carmo (numa feliz iniciativa da Rádio Comercial)

     À hora da morte, sublinhados os valores profissionais e humanos, fica o sentido de uma grande perda coletiva perante um caminho artístico e humano bem cumpridos e largamente reconhecidos.
     

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Vá de retro!

            2020, vai-te embora!

         Foi tão indesejável que percebo aqueles que dizem que houve janeiro, fevereiro e dezembro. Quase um ano inteiro preso a uma máscara, confinado, com restrições e grandes limitações no sentido de felicidade e liberdade.
         Para o novo ano não tenho desejos. Talvez haja uma leve esperança... leve. Gostava que fosse sólida. É mais gasosa, talvez líquida pela força da vontade. Solidez não!

Onde chega a onda?

         De resto, não formulo desejos. Tal como Tchékov, nalgumas das suas peças, prefiro o silêncio: o som mais eloquente de todos, para todas as circunstâncias (nomeadamente esta, a do começo de um novo ano). O silêncio.
        Sinto-me qual gaivota sobre um lago. Sem terra, sem mar. Por ali, algures, num espelho estagnado, em imagem parada, à espera de melhores dias (Venham eles)!
          Escrevo na areia 2020. Venha o mar...
          Segue-se 2021. Onda, onde chegarás?

          2021... sei lá que diga!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Ainda Lídia...

        Depois de um primeiro apontamento, persiste a curiosidade sobre Lídia (seja ela quem for,... ou não)!

      Tudo a propósito de uma pergunta avançada por alguém que "viaja nesta carruagem": quem é Lídia nas Odes de Horácio e em Sophia de Mello Breyner Andresen?
    A construção da figura é precisamente isso: uma construção poética, literária, simbólica, um tópos delineado como personagem que autores, ao longo dos tempos, foram e vão configurando na memória coletiva da literatura universal. No fundo, constitui-se como uma espécie de código para representar temas, ideias que transcendem o tempo e traduzem uma herança cultural e literária da Europa latina.
        Lídia não é ninguém, com a possibilidade de, potencialmente, ser toda e qualquer pessoa. É o resultado criativo de um autor clássico - Horácio - que associou à criação o que deixa ler nos seus versos, mais precisamente, uma conceção do que é o amor e a paixão amorosa na vida de qualquer um. Entre a expressão explícita de um sentimento numa visão conformada de sentido estoico-epicurista e o retrato polifacetado de uma personagem que, à moda pessoana, pode implicitamente ser a descentração do próprio 'eu' criador, tudo pode caber no jogo do fingimento artístico que a literatura, em geral, e a poesia, em particular, são.
      Nas Odes horacianas, Lídia é objeto de recomendações, avisos, chamadas de consciência no domínio amoroso (o amor que se transforma, numa espécie de feitiço que se vira contra o feiticeiro; que faz negligenciar o dever, os compromissos, percursos de vida mais dedicados ao esforço e à disciplina; que se revê nos perigos ora da sedução - de que Lídia é mestre - ora do abandono - dos por ela seduzidos; que, irascível e leviano, desconcerta, mas já permitiu vivências de comunhão entre amantes tão diferentes; que se molda numa expressão tensa, dramática e, por isso, também fonte de ação e de vida). É também ela sujeito de uma voz diretamente representada, no diálogo com um 'eu' (na ode nona do livro III), a sublinhar que o presente bem diverso nas representações do amor não impediu um passado de conjugação e felicidade partilhadas. 
       Em suma, mais do que quem é, Lídia representa a súmula dos diferentes matizes de um sentimento plasmado, na sua diversidade, desde as letras da Antiguidade. Neste sentido, ela é ciclicamente revisitada por autores que leram Horácio e/ou pertencem a uma tradição cultural e literária comuns, mesmo quando eles se assumem como distintos, mas nem sempre distantes, de uma cosmovisão clássica (como é o caso do romântico Garrett, cuja educação não deixou de ser por ela marcada).
     Sophia está neste percurso de revisitação, tanto por alguma referencialidade e inspiração clássicas da sua obra como pela experiência de leitura que espelhou influências e reações. Seja por acesso direto a autores clássicos seja por leitura mediada (por exemplo, do heterónimo pessoano Ricardo Reis), a autora de Dual (1972) recuperou essa personagem horaciana, que Reis retomara, acrescentando-lhe cambiantes um pouco desafiadores face à (re)visão proposta por quem havia escrito "Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio". Diferente deste, Sophia alerta Lídia para os perigos da resignação, do comedimento, de uma ataraxia que impedem a ação ou a vontade de agir; avisa-a de que não pode acreditar naquilo que outros fizeram crer ("Não creias, Lídia, que nenhum estio / Por nós perdido possa regressar"). Ao contrário de Reis, não é desejável que ela fique pela contemplação do rio, com as mãos desenlaçadas, numa tranquilidade ou serenidade estagnantes. O convite, agora, é para ela se atirar ao rio e acompanhar o fluir da vida. Nova é a mensagem: aquela que permite a mudança, a celebração, o festejo, o carpe diem que o heterónimo pessoano conheceu, mas evitou (enquanto estratégia de sobrevivência), para obsessivamente não sofrer ou não perder muito à hora da morte.

      À pergunta 'Quem foi Lídia?', uma bem mais importante interessa considerar: 'o que esta representa na tradição artística, cultural, literária, nessa herança latina a todo o tempo revisitada?' Onomasticamente, diz-se que Lídia significa 'aquela que tem as dores do parto'. É, portanto, aquela que traz e origina vida. Metaforicamente é aquela que se identifica com a vida e como esta é percecionada por quem dela / para ela escreve.
 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

(Re)viver o Natal, a saber a mar.

      O Natal já passou!

      Repete-se, sempre que é possível juntar amigos, ainda que à distância desejada para o bem de todos.
    A vontade dos abraços é grande, os sorrisos e as gargalhadas estão mais contidos, mas escapam sempre aqueles ou aquelas que aquecem o momento.
    O convívio é controlado, mas o instante das trocas de prendas é sempre o mais confuso, por causa do entusiasmo de dar e receber - trocar na vontade do que se fez, do que se comprou, do que se escolheu para o(s) outro(s) que faz(em) parte de nós. É como se revivêssemos esse tempo genuíno da infância e da ânsia de descobrir o que está dentro do embrulho. Rasga-se o papel, abrem-se os sacos, revela-se o que é, agradece-se e promete-se que, no próximo ano, vamos repetir tudo bem juntos (o que já é impensável não acontecer).
    Veio a "Prenda natalícia", como muito mar (que rima com amar - esse sal de vida a temperar a amizade). O verdadeiro natal é estar(mos) junto(s) e dar o que saiba a mar:

Um natal tão típico no atípico que foi - montagem de fotos (VO)

         Com Covid, sem Covid, não interessa. Desde que aconteça!
      (A trabalheira que me deu ir à praia, apanhar conchas e substituir aqueles típicos papeluchos a indicar 'De:...' e 'Para:...'! Que me perdoe o comércio destes tempos, mas gosto mais, é mais natural e também gratuito. Escreve-se o nome dos amigos e sempre se dá uma prenda com um pouco de praia, de mar, a lembrar verão, nestes dias de inverno).

     Já lá vão três dias; mas Natal é quando o Homem quiser (na companhia daqueles com quem queremos conviver)!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Natal em concha

      Tão pequeno na sua grandiosidade!

      Grandioso rima com gracioso. O meu presépio tem as duas qualidades de tão pequenino que é.
      Ganhei-o como presente, embrulhado nas cores natalícias que também são nacionais:

A concha da vida em tempo de Natal (Foto VO), 
com o agradecimento pela lembrança amiga da E.P.

    É pequeno como as personagens humildes nele representadas, tão grandes para o mundo.
    Inspira fragilidade, mas é o exemplo de humanidade que nem sempre os humanos seguem.
    Um bom Natal para todos, em tempos tão críticos que permitam a descoberta do que verdadeiramente interessa: uma concha de vida para vida.

     Vale este tempo para isto lembrar: a concha da vida que, ao Homem, o tempo convida à hora de nascer, para a cada instante revivescer.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Um espaço a várias cores

           Quando no mesmo local, o tempo passa...

        Só o mar vai e vem junto à praia. Talvez também não seja mais o mesmo, ainda que os olhos pareçam ver a mesma água. Não é a do rio, que flui para o mar. Dela, Heráclito de Éfeso dizia “Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras.” Em suma, ninguém se banha duas vezes na mesma água do rio - a constatação da fugacidade do tempo, da volatilidade da vida.
          Há bancos, porém, que se mostram à espera de quem neles se sente. Assistem a quem passa, ao ir e vir das ondas; ao sobrevoar do sol; às nuvens que surgem e se dissipam; ao correr das estações.

Um banco mirando o espetáculo da natureza (Foto VO)

Um banco mirando o espetáculo da natureza (Foto VO)

         Estão bancos distintos nas cores do(s) dia(s), quando uma só nuvem faz a diferença. Talvez sejam outros, sem o parecer no correr do dia-a-dia ou dos meses; lá ficarão no devir de muitos anos. 

          ..., há quem por lá fica, aos poucos, e vai deixando de ser o mesmo.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

A propósito de choques... (no plural)

      "Chocada" por chocado, resta dizer que já somos dois em choque!

     Lido um 'briefing' noticioso do dia, chama-me a atenção o título de alguém que se diz chocado. Acabei por ficar da mesma forma, mal assimilei o conteúdo do texto:

Um 'briefing' a correr o risco de nunca mais acabar...

      Nem sei por onde começar. Vamos por ordem. 
    Primeiro, uma construção relativa que não dá lugar à devida anteposição do pronome 'se' ( > "... dentro do qual... se mantém..."); depois o conectivo aditivo "não só... mas também..." que, na sua composição correlativa, não deve dar lugar a separação por vírgula; por fim, a extensão frásica de todo o apontamento a encadear orações sucessivas, umas atrás das outras, num comboio que parece não ter fim. Bem digo aos alunos que, ao escreverem, duas / três linhas, há que parar, para dar fôlego à escrita e o leitor não sufoque. Duas, três orações e chega! Colocar ponto e recomeçar a construção de novo período com pensamento completo (princípio-meio-fim). Não só a extensão excessiva começa a comprometer a inteligibilidade informativa como também o erro se torna previsível: aquele 'onde' a retomar 'autoridades gregas' é, no mínimo, duvidoso. E, logo a seguir, está para surgir nova subordinada introduzida por um 'que', mais uma coordenada com um 'e', e sabe-se lá o que mais virá (viria).

       Pelos vistos, o choque não é só da Srª. Secretária de Estado. É também meu, por um 'briefing' que não é tão breve quanto isso. Portanto, um mau exemplo de escrita.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Onde está o Ernesto?

        O tempo anda muito depressivo!

        Depois de ter sido anunciada a Dora (que me fez lembrar a letra de uma canção, em versão feminina: Não sejas má p'ra mim!) para o fim de semana passado, eis que chega, agora, a depressão Ernesto, com chuva, neve, vento e marés altas.
        Isto de as tempestades e as depressões terem nomes próprios tem a sua piada (estou à espera de uma com o meu nome)! Nem por isso é a graça dos efeitos que provocam.
         Talvez por isso, hoje, o céu estava um autêntico borrão; ou melhor, manchado de alguns borrões bem coloridos:

Borrões celestes (Foto VO)

         E lá estava ele, o sol, entre os escuros, a espreitar, como que à procura do Ernesto:

À espreita entre escuros - onde anda o Ernesto? (Foto VO)

         Lá virão mais uns dias inverniços, invernengos ou inverneiros, mesmo quando estamos no (final do) outono. Poderia escrever 'invernosos', mas apeteceu-me variar. É favor não reagir mal aos meus adjetivos, que hoje ouvi o nosso Presidente da República anunciar a sua recandidatura, para não "instabilizar" a situação nacional (pelo menos, os meus adjetivos estão dicionarizados)! 

         Deve ser do inverno que aí vem.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Do bem e do mal (ou afins)

           Tudo depende por onde se começa.

      Cruzei-me (não sei se por oportunidade ou ironia do momento) com um livro intitulado Poemas do Bem e do Mal. O autor, Max Miliano (pseudónimo de Alan de Souza), propõe uma antologia poética em três capítulos, cada um dos quais a abrir horizontes para a espiritualidade e o lirismo, entre os vícios e as virtudes humanas, na busca de um equilíbrio entre forças ou energias (um pouco de yin e yang, de sombra e luz). Trata-se de poesia urbana (não sei se de urbanidade), de versos do mundo e de vida alternativos; de vida contemporânea, feita de bem e de mal - em contraste e em complemento.
       Quero acreditar que o mal existe porque há o bem (e não o contrário). Pode ser crença, assumo; mas é bem mal que este último esteja no princípio de tudo. Mal gera mal; é tóxico. Bem, por princípio, dá lugar a novo bem, à predisposição para se ser (mais) feliz e fazer (mais) felizes os outros - um sentido de humanidade, portanto. Sei que o bem cansa e pode fazer com que alguns dele suspeitem (por o associarem a motivos outros que não o do próprio).
        Gente que faz bem nunca devia ser chamada pelo bem que fez, julgada pelo mal que outros dizem ter sido feito. E se tal é dito é porque se desvaloriza o bem (intencionado) que houve, apostando no mal (insignificante) que nunca existiu e, por alguma razão, despropositadamente se sentiu.
        Bem melhor seria que este mundo ficasse livre do mal. Já que tal parece ser difícil, procure-se (ver e ouvir) o bem para que o mal não resista nem persista.

         No bem que se faz há que dirimir o mal. O mal não é bem que alguém queira (talvez seja levado a ele por uma desconfiança doentia).

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

No vaivém da chuva, do mar e das gaivotas

     Uma paisagem familiar, entre o estado goticulado e o molhado.

     O tempo de inverno, em despedida de outono, está aí e poucos podem já ser os passeios, a não ser nos intervalos dos chuveiros que ora vêm ora se vão. 
    Assim que chegam, as gotículas de chuva colam-se aos vidros; escorrem algumas, aqui e além, deixando ainda ver o que está para lá delas:

Num dia de chuva, para lá dos vidros (Foto VO)

      A paisagem conhecida ganha outra visão, como que pintalgada; melhor, goticulada. 
      Para a chuva e o sol deixa-se ver, como um remendo, num pano de fundo de nuvens escuras:

Um passadiço à beira-mar - I (Foto VO)

            Uma gaivota aparece para a composição do "quadro"; outras seguem-na:

Um passadiço à beira-mar - II (Foto VO)

        E já não é só a diferença das aves. São as cores, as nuvens continuamente a mudar (sim, não é apenas a mudança no olhar)!

Um passadiço à beira-mar - III (Foto VO)

       Entre o chão e o céu, há um mar imenso para contemplar: vai e vem sem voar; não é gaivota, mas é livre no seu ondear; não é nuvem, mas tem as cores desta a deslizar; há de ter o sol a nele se deitar; a linha do horizonte esconderá, assim que o escuro da profunda noite chegar.

        Qual Caeiro, diria que, a cada instante, a paisagem familiar (re)nasce; a cada piscar de olhos, a eterna novidade do mundo acontece.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Ilustração bem exemplificativa

      Assim ma foi dada a ver.

     Este, sim, é o caso de um verdadeiro "influencer" (com um "follower" à altura):

Os verdadeiros "influencers" - os que testemunham o bom exemplo 
(recolhido do Facebook)
  
   Já alguns, ou algumas que se dizem como tal, deixam muito a desejar - então aqueles(as) que aparecem na televisão, a perorar acerca dos comportamentos dos outros, são uma lástima!

    Tudo isto porque me perguntam se eu vejo certos programas que, por princípio, nem deviam existir (estou aqui estou como eles, a perorar sobre o que não vejo nem quero).

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Da Restauração da Independência Ao Peso De Uma Ausência

     É dia feriado, para celebrar a restauração da independência nacional; é dia de pesar, pelo anúncio da morte de um grande intelectual.

    Aos 97 anos, faleceu Eduardo Lourenço. Dizem-no ensaísta, pensador, filósofo, crítico literário, escritor, interventor cívico, conselheiro de Estado. E, indubitavelmente, o foi. Sublinho o facto de, em tudo isso, ter sido um Professor.
    Para quem dizia que não sabia fazer "outra coisa a não ser pensar", tomava este ato como o do "diálogo que temos connosco próprios". Era um pensador que parava para pensar, que buscava as melhores palavras para exteriorizar, traduzir um pensamento à espera da luz do dia. Da morte, dizia que não é pensável"; "é só uma coisa que falta, que nós nos estamos faltando". É tomada, assim, como "só isso: uma ausência. E essa ausência não pode ser dita, não pode ser escrita".

    Eduardo Lourenço - retrato pintado por Bottelho

     Na sequência da ausência neste dia, o Professor Carlos Reis relembra um episódio da vida de Eduardo Lourenço, quando este, no ano de 2010, pelo funeral de José Saramago (20 de junho), adquiriu, numa livraria, um exemplar do Memorial do Convento. Na folha de rosto escreveu: “Agora terás a eternidade para leres a maravilha que escreveste”. Instantes depois e de modo reservado, Eduardo Lourenço introduziu o romance na urna do nobel da literatura português. Pouco antes da cremação, evocava, assim, e singelamente, a eternidade, para reconhecimento da grandiosidade literária de um homem e de uma obra. E, assim, o romancista foi acompanhado do que escreveu, ambos notabilizados, porque o pensador quis preencher a ausência com o maior dos presentes: o d(e um)a obra d(e um)a vida.

       Grande gesto de um homem grande. Obra bem escolhida (eu escolheria outra) para um romancista que Eduardo Lourenço talvez quisesse ter sido, mas preferiu pensar a vida, o Homem, Portugal e Ser Português no Mundo.